E sobrevoam minha mente milhares de paranóias em torno do fogo. Não a vi ali, mas pude senti-la. E cada vez que a sinto na presença do fogo, lembro o quanto eu deslizo na tóxica corda bamba deste maravilhoso circo. O vôo das claves no ar respinga diesel no meu coração e põe em fogo em minha esperança, me transformando em cinzas. E tudo que eu tenho é nada. Cabeça baixa como quem pede perdão, eu a imagino na cena. E a vejo ali, deslumbrante em chama ardente e viva que brilha nos meus olhos ao mesmo tempo em que queima. Por dentro, me contorço em um ritmo frenético de quem declara suicídio instantâneo. E a vejo viva e forte. E a vejo digna de todo meu amor. Mas de repente o vejo. E eu adentro a cena, brincando com fogo. Nesse circo, eles são a técnica. Eu sou o coração. Coração é café-com-leite, não brinca com fogo. Não sabe brincar. Não tem técnica. O coração é só a decoração da peça. O cenário, talvez.
Em outra imagem do meu alucinante imaginário espetáculo, eles enterram todas as espadas mágicas no meu peito. Mas ela vai lá, tira e eu fico intacta. Eu sou assistente. Assistente não desiste, não fala, não opina. Assistente não foge. Assistente não corre. Assistente não morre. Assistente não desliza no perigo porque não tem técnica. Assistente só vive a adrenalina de estar em palco enquanto está de olhos vendados. Assistente é coração e silêncio. E eu, eu não sou nada. As cortinas se fecham, eles entrelaçam suas mãos para os aplausos, e então nós nada somos.
Enquanto isso do lado oposto da cortina, a assistente vira as costas. Eles agradecem.