Eu não sei porque ainda me perco tanto em pensamentos, quando na verdade, as coisas são tão complicadas que somente vivendo eu entenderei. Mas do teu lado tudo parece simples e real. Ou talvez isso não tenha nada de real, e sejamos duas doidas desesperadas por sentir calores de paixão; ou talvez o que queremos é exatamente tudo aquilo que somos entre quatro paredes? Porque em mim é algo ardente, intenso e profundamente magnético o teu corpo espalhado sobre o meu como se eu não tivesse um corpo, e pior, adoro assim. O teu pescoço, e o tom suave das tuas cordas vocais. Talvez ainda, cada pintinha que descobri espalhadas por esse corpo; e são tantas que tenho a impressão de que me guiam por um tal caminho em que sei que vou me perder, que já me perdi. Tudo bem, eu sei que pode ser que eu esteja completamente perdida, mas ainda quero manter a tal pose. Quero manter a insaciável pessoa que te tirou do ar, sem ter que demonstrar que essa pessoa tem coisas lindas pra te falar ao pé do ouvido. Não quero te dar minha parte sentimental, por mais que eu fique absurdamente tentada a isso. Não quero estragar nada, e nem quero... Deixa pra lá. O que eu quero mesmo é te dizer que o traçado dos teus sinais me leva à loucura, e que tuas costas quentes em minhas mãos tem me feito pirar cada vez que lembro que eu te seguro como se estivéssemos prestes a cair nesse abismo imenso em que ambas querem mergulhar, e não se dão ao luxo de admitir. É verdade também que talvez eu já tenha mergulhado de cabeça nesses espelhos da água mais cristalina, que é o teu olhar. Eu não buscava paixão, sentimento nem nada disso que já está tão fora de moda que nós, os românticos, temos vergonha de admitir sê-lo. Eu buscava alguém pra me mostrar qualquer coisa, mas tu cresceste dentro de mim daquela maneira exata que Caio Fernando Abreu descreveu. Tu me faz delirar como se eu estivesse 24 horas por dia com uma febre quase que fatal. Eu te planto todo dia como uma sementinha, e cada vez que vou nos regar, percebo que crescemos de tal forma, que eu sei que não cabemos nessa terra. Somos mais, tenho certeza. Somos vida, somos energia e luz. Calor e aflição por de repente chegar alguém, não podemos nos deixar descobrir. E por isso, nós nos escondemos embaixo dos milhões de cobertores que em dez minutos estarão certamente atirados em qualquer lugar do quarto. Nos escondemos entre cabelos, gotículas de suor e aquelas três palavrinhas que podem mudar tudo pra sempre. Pro bem ou pro mal. Nos escondemos pra nos sentirmos menos iguais, e ainda menos diferentes do resto do mundo. Eu te levo todo dia pra passear, sabia? Dentro de mim, já conhecemos mil lugares e muitas vezes tu fez caras de nojo por não gostar de determinada comida típica, tão necessária de ser provada. Em outros, porém, te vi sorrindo feliz, com os braços abertos em direção ao mar, e eu sorri por dentro. Já mergulhamos, fizemos gastronomia e passeamos em Minas Gerais. Te vi correr e rolar na grama, e juntas nós tomamos banho de praia naquela água gelada da região costeira do país vizinho. Aluguei hotéis e cabanas, praias e visitas guiadas, pra te ver descobrir o mundo que te deixa tão curiosa. O mundo todo que existe além dos meus cobertores, e que reside principalmente dentro das minhas expectativas pro ‘depois’. Depois esse, que eu espero ter a oportunidade de te fazer viver, porque aqui dentro ele já é quase um sonho. Espero que venha então o momento de te ver vestir tua saia hippie, e andar comigo de pés descalços na areia. Espero presenciar meu momento mais romântico, colocando uma flor no teu cabelo, enquanto estás jogada embaixo de mim na areia da praia. Espero poder ir e ver, espero ser levada e assistir... Sabe de uma coisa? Quero deixar mesmo as coisas rolarem contigo. Quero deixar estar sempre, te deixar ir e vir, se for o caso. Apesar de todo meu sentimentalismo hoje, eu precisava te dizer essas coisas. Se eu não estivesse tão sentimental, talvez eu não dissesse, mas ainda assim sentiria necessidade de te fazer saber. Te dizer que nenhuma outra mulher poderia nesse momento me fazer sentir tantas coisas, como essas que estou sentindo contigo. Talvez tenha sido o teu sorriso, ou a forma como meus olhos filmavam cada traço do teu corpo nu, enquanto ouvia a chuva bater lá fora. Talvez, ainda, a pulsação dos nossos corações que, em contato com o suor, nos fazia não pensar em nada além. Enfim, vontade de tantas coisas, vontade de ti, sede e fome dessa coisa louca que me motivaria com toda a certeza a sair por aí apanhando esse frio glacial lá fora, só pra ter algo que possa desfocar minha atenção da tua respiração no entorno da minha boca. Vontade de sair por aí, e te encontrar de novo em alguma dessas esquinas desertas, e ser louca contigo enquanto a cidade toda quer o calor e o conforto da cama. Vontade de poder um dia te levar, e ir contigo bem longe, só pra sentir tudo isso sem um pingo sequer de culpa. Sem um pingo sequer de nada que não seja o nós, esparramado em sensações de plenitude e de ser. Sem ter que esconder da boca a verdade que os olhos passam o dia inteiro escancarando.
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