Depois
de você
Hoje
eu tava conversando com a minha namorada sobre as coisas da vida. Na
verdade, sobre meu novo jeito de ser. A verdade é que, depois de
você, ninguém mais foi. E ninguém mais foi, porque ninguém mais
veio. Ninguém mais entrou, ninguém mais ficou, ninguém mais me
conquistou. Ninguém mais teve a oportunidade, e bem que eu tentei.
Ou não? Acho que tentei. Nem metade do que deveria tentar, porque
depois de você, não há o que tentar. Não há o que descobrir. Não
há mais o que eu possa querer. Sabe, eu cheguei a uma conclusão
importante, que talvez possa sempre me confortar em tempos de
saudade. A conclusão é a seguinte: a gente vive a amizade e
descobre ela, e se descobre. Mas isso é por um certo período da
vida e nada mais. A amizade é algo que faz parte da nossa vida
enquanto somos jovens e não temos muito o que perder. Ela ajuda a
gente a se descobrir, a se conhecer e a florescer. Ajuda a gente a
saber como lidar com adversidades da vida. Mas, apesar disso, a
amizade é o ensinamento mais importante porque é o que nos ensina a
perder. Só que a gente só é capaz de vivenciar e acreditar na
amizade até certo ponto. Chega um momento em que a gente vai
amadurecendo, e que as amizades vão, pouco a pouco, abrindo buracos
quando é momento de partir. Dentro do nosso coração, a amizade tem
um espaço enorme que, ao longo da vida e das perdas, vai virando um
buraco. E conforme as pessoas se vão, esse buraco vai aumentando. E
conforme vai aumentando, o espaço pra amizade vai acabando. E
conforme vai acabando, o tempo e o espaço das amizades finda de uma
vez por todas. O fato é que, quando eu te conheci, eu tinha buracos
enormes já; E meu coração já não tinha muitas esperanças. Mas
tu foi jardineiro em outra vida, e conforme passaste por aqui, fosse
lavrando a terra como quem aumenta seu próprio território e dá a
ele condições de plantar. E tu plantou, nós regamos, e a planta
cresceu. Só que ela cresceu em solo desacreditado, por cima do
enorme buraco que ali havia e eu nem percebi. Se soubesse, eu teria
te dado um pouco do meu território do amor, que é o que mais existe
espaço dentro de mim, e é o mais intocável também. Nunca permiti
que alguém deixasse muitos buracos nesse território, porque eu o
guardava para que a pessoa certa pudesse ter base pra crescer; e
enquanto eu estive do teu lado, a pessoa certa ainda não havia
chegado pra mim. Enfim... nós só podemos cultivar a amizade até o
momento em que somos adultos. Aliás, só pra certificar e concluir
minha pesquisa: quantos adultos tu conhece que tem um amigo de
verdade? Eu não
conheço nenhum. E acho que a vida é mesmo assim... a maturidade
vem, e as amizades vão. Eu só queria te dizer que a verdade é que
depois de você, só ficou buraco. E todo mundo que chega, acaba
caindo lá dentro e não tem volta. Eu fiquei fria, muito fria. E
essa é uma das minhas maiores realidades. A minha namorada me disse
que talvez isso machuque as pessoas que se aproximam de mim agora.
Mas a verdade é que eu não me importo mais em cultivar porque aqui
não tem espaço. E, apesar de ser tão sonhadora, eu não quero mais
ter um amigo porque eu não consigo mais acreditar que isso seja
possível. Eu sei que eu te magoei, e eu nunca quis fazer isso. Mas
já não cabem mais pedidos de perdão, e eu nem ligo mais. Hoje, eu
só sei pensar que quem quiser estar comigo tem que fazer por onde,
sem me cobrar nada. Mas nunca será um amigo, eu penso. Terrível
isso, não? Sim, é terrível, é doloroso, é triste. Mas não me
magoa mais. Nem isso eu consigo sentir depois de você. E ainda,
mesmo sabendo que isso tudo foi uma enorme falta de comunicação, eu
te digo que não me importo mais em te explicar, em te fazer
entender. Não é mais tempo. Eu só queria poder enfiar na tua
cabeça que realmente foi uma enorme falta de comunicação, que
abriu um buraco a mais entre eu e tu e que nos separou sem a
colocação de uma ponte no meio. A ponte de uma simples conversa, no
nosso caso. Um último pedido, seu eu pudesse fazer, seria que tu
entendesse que na época, eu não estava preparada para cruzar a
ponte porque eu não sabia o que falar e isso significa muito mais,
porque eu não sabia nem o que sentir. Mas eu só precisava do meu
tempo pra poder te contar tudo. Precisava ainda do teu tempo, pra que
tu pudesse me ouvir de coração aberto. Mas nada disso aconteceu. E
quando eu ganhei a melhor coisa da minha vida inteira, eu te perdi.
Te perdi antes de realizar o meu maior sonho, e nem pude te contar.
Só mais uma coisa: me dói não fazer parte da tua vida em momentos
bons ou ruins. Porque eu amava estar ali em qualquer circunstância,
e realmente é uma pena. É uma pena eu não estar aí mais,
principalmente sabendo que tu ainda estás aqui. Me dói saber que eu
vou realizar em breve o meu segundo maior sonho, e tu não estarás
lá pra me aplaudir em pé; assim como eu não estive lá pra ti. Mas
já pensei bem numa forma de não doer tanto. Não vai mais ter
aquela festa de formatura que eu sonhei a minha vida inteira. Eu não
vou fazer mais, e está decidido. Não vão ter fogos de artifício
quando eu for profissional na minha área, não terão flashes e nem
a ressaca no dia seguinte. Até porque eu não bebo mais. Não vai
ter discurso de formando, não vai ter chuva de prata, não vai ter
salão de festas decorado, não vai ter nada do que eu sonhei. Sabe
por quê? Porque eu não tenho quem lotar o salão com um sorriso de
irmão. Agora tudo que vale a pena é a minha família e o meu amor
verdadeiro. E é só por eles que eu vou festejar. E eu vou festejar
de forma bem mais simples, mas a tua metade do estabelecimento – no
caso, a metade reservada para amigo(s) - ficará vazia com o buraco
que tu me deixou de lembrança.
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