Ela
tem algo. Eu sempre me perguntei o quê. Apesar de rodar sempre em
torno da mesma pergunta e nunca achar uma resposta, é inegável que
ela tem algo. Ela tem algo que balança a minha vida e faz eu amar
insanamente cada detalhe. Não é o corpo, não são os olhos, a
boca, a voz, a risada solta ou o sorriso inocente. Não é o jeito
como mela meus ouvidos com a pronúncia daquele espanhol sexy que eu
elogio e a deixo vermelha. Não é o jeito de vestir, de andar, de
dançar. Não é o teatro que ela arma na minha mente cada vez que
faz swing ou malabares com fogo. Não é o fato de me deixar
completamente indignada quando me acorda no meio da madrugada dizendo
que precisa ir embora e me lembrando que só passou lá em casa pra
dormir um pouco de conchinha e me joga na cara que eu sei como são
seus pais, e que eu posso imaginar a saga de voltar ao normal em casa
depois de ter passado uma noite comigo. Não é o perfume
enlouquecedor, não é o abraço que não aquece apenas o meu corpo,
mas minha alma inteira. Não é o tradicional drama pra fazer com que
eu morra vendo aquele beicinho e faça tudo que ela quer, não é o
rosto angelical dormindo no meu peito, lugar feito e desenhado por
Deus especialmente para ela. Não é o pensamento jovial, a cabeça
aberta, a conversa solta que flui fácil. Não é o sexo esplendoroso
que nos arranca, literalmente, gotas de suor quando a temperatura
está em 5º lá fora. Não é a abundância de assunto que temos
pela manhã e nos faz ficar no telefone durante, no mínimo, uma hora
após acordar; mesmo quando nos vimos na madrugada passada. Não é o
companheirismo, não é a sintonia impressionante, não é o fato de
termos a mesma altura, a mesma estrutura corporal e até poucos meses
atrás até o mesmo peso. Não é a mensagem na madrugada, não é a
ligação em que uma pede à outra: “Me cuida? Perdi o sono e tenho
medo”, não é a insatisfação crônica quando estamos longe. Não
são aqueles olhos escondidos embaixo do cobertor de pêlo, não é a
pele arrepiada bem debaixo dos meus olhos com o corpo completamente
nu, não é o cheiro que despudora todos os meus sentidos e me faz perder a razão. Não é
aquela frase aparentemente clichê que diz “como foi o teu dia?”,
e nem a sinceridade que vejo nessa pergunta. Não é o fato de querer
fazer parte de todos os momentos da minha vida, não é o fato de
entender minha tpm, mesmo quando ela prejudica algo. Não é o colo
sempre disponível quando preciso chorar, não é o carinho mais
gostoso do planeta. Mas ela realmente tem algo. Ela tem, além de
todas as coisas que eu citei acima, todo o resto pra me fazer feliz.
Ela tem o que quiser de mim, porque eu também a tenho exatamente nas
mesmas proporções. Eu não sei porque fico me perguntando o que é
que ela tem, se ela tem tudo. Ela tem, inclusive, o dom de me fazer
perceber que eu tenho o dom de amar cada mínimo detalhe da
personalidade e do caráter dela. Acho que quando nós amamos de
verdade uma pessoa, do jeito que eu a amo, a gente ama de verdade
tudo que vem junto. Todo o plus
de cores, sabores, defeitos, qualidades e valores que vem integrado.
Ela tem a minha confiança, sobretudo. Isso é uma das inúmeras
coisas que alguém jamais teve de mim. Assim como tantas outras
coisas de mim que ninguém teve a ousadia de tentar conhecer. E
algumas outras, é claro, que eu jamais me permiti pensar a respeito.
E, sendo assim, apesar da minha curiosidade, eu não preciso ficar me
perguntando o que é que ela tem. Porque ela tem muito mais do que eu
pensava precisar. E isso é suficiente para que eu tenha definido pra
mim um objetivo de vida: fazer ela feliz diariamente, para que ela fique comigo pra todo o nosso sempre.
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