Lendo Gabito Nunes, eu sempre me inspiro. Sim, porque o cara consegue dizer com as palavras dele tudo aquilo que meu coração monótono e por vezes sanguinário não diz. Existe sempre uma resposta incoerente nas minhas perguntas sobre nós duas, e isso me incomoda. E não venha me perguntar ao que se deve minha insatisfação crônica sobre relacionamentos, porque a resposta é sempre óbvia demais. Não venha me perguntar se cansei da nossa trajetória ou se nesse caminho houve qualquer tipo de bifurcação, porque o singelo segredo da alma esconde o que os olhos escancaram sem a boca sequer mover. Não me questione sobre falhas ou mentiras, porque quando um relacionamento não avança é porque a conversa sempre foi adiada. Não me fale das vezes que te ameacei não querer mais conversar porque esse sempre foi um aspecto importante PRA MIM. As minhas ameaças constantes de uma possível falta de diálogo me convenceram que quem muito fala pouco faz. De tanto te ver odiar DRS eu aprendi que talvez elas não fossem boas pra nós. E considerei te fazer mais feliz sem tanta paranóia, mas acabei me tornando descrente de que diálogos funcionariam no nosso caso. Não vem me jogar na cara todas as vezes que eu deitei no teu ombro e dormi sem sequer te dar boa noite porque muitas vezes eu vivi a mesma coisa, e quando isso acontece, sempre há algo errado. Não venha me contrariar se eu vier a opinar negativamente sobre a tua saída da minha casa ontem; eu entendi que algo estava mais errado do que o normal, porque naquele momento, se eu não te lembrasse, teria ficado sem aquela famosa bitoca de casais que se despedem depois de 40 anos de casados. Não venha então me lembrar sobre o tanto que tenho sido fria e calculista, ou de repente sobre a inconstância das minhas atitudes. Eu gosto de saber que tens teu sono de refúgio, porque ele é quase um colete salva-relacionamentos que tu guarda no subconsciente, e talvez até uma forma de não brigar. Eu, ao invés disso, me refugio em qualquer outra coisa que me mostre vida, porque sempre amei viver de forma intensa. Não te preocupa em vir até a minha casa se for pra falar que toda essa crise vem com a minha despreocupação em te impedir de ir embora da cidade, porque eu não tenho apego nenhum em relação a essas coisas. Aliás, eu não admitiria viver de novo um relacionamento de impedimentos sobre coisas possivelmente boas, e não te pouparia de achar vida longe de mim. Quero o que for melhor pra ambas, e se for melhor assim, eu não vou te impedir. A propósito, esse texto não vem com a intenção de colocar a culpa toda sobre a tua cabeça. Até porque um relacionamento nunca desaba de um lado só. Eu tenho culpa, e muita, em várias coisas. Talvez eu tenha me acostumado com o nosso relacionamento morno e a minha impotência em aquecê-lo, e isso tem uma resposta. Ainda, é possível que eu tenha te feito perder o que tu mais odiava em mim há um tempo atrás: a minha busca constante por um diálogo que pudesse resolver nossa condição. Eu desisti disso, porque não conseguia mais suportar a tua cara de tédio cada vez que eu voltava naquela história chata de que conversando poderíamos resolver. Talvez tu tenhas acreditado que – graças a Deus – eu comecei a odiar nossas drs. E sim, isso aconteceu. Desde então, cada novo diálogo discursivo sobre os defeitos de uma ou da outra parece uma tortura pra mim. Eu sei que nesse momento tu deve estar repetindo a velha mania de coçar a sobrancelha num ato de grito interior tentando extravasar todo teu ódio por eu publicar de forma esmiuçada todos os nossos problemas. Só que essa é a forma que eu achei de me manter mais calma, sem precisar te pedir pra conversar e tentarmos resolver alguma coisa. Eu entendo todas as tuas preocupações ao realizar um trabalho difícil que precisa ser entregue com tanta urgência de alguém que ficou adiando por meses. Mas eu te avisei sobre isso, e fui tachada de tua segunda mãe, porque estava sendo careta ao dizer que é difícil realizar algo em tempo recorde quando não se fez em tempo hábil. Além disso, eu não fiquei em nenhum momento te tratando mal quando eu estava presa e apavorada com a faculdade e não tinha uma pessoa sequer pra me abraçar e dizer: relaxa, tu vai conseguir. Tu falavas isso por MSN. Eu poderia ter feito isso por ti, caso tu não tivesse batido a porta da minha casa dizendo: “Fran, vou embora e só volto segunda à noite” com aquela cara de pavor misturada com um sentimento de “não posso nem te olhar”.
Mudando de assunto, eu gosto de te conhecer tanto. Gosto de poder te olhar e perceber que tá tudo bem, ou até mesmo que tá tudo errado. Gosto quando tu diz que eu sou a mulher da tua vida, e quando tu tem aquelas crises de ciúme falando que todas as gurias da cidade são apaixonadas por mim, e que nenhuma delas é capaz de me esquecer. Gosto da tua cara de raiva quando eu recebo um recado ou outro de alguma do passado perguntando se eu tô bem. Gosto de te olhar com aquela cara de debochada, e te dizer que tu é muito boba, porque eu te amo. E gosto também do quanto tu fica puta quando eu faço isso. Gosto quando tu me acusa de não ter preocupação com coisas fúteis que te deixam louca. Gosto quando tu me pergunta se os textos do meu blog são reais ou não, e se por acaso estou no meio de uma fase meio Brenda Chenowith, tendo um caso imaginário com alguém real. Gosto quando tu fantasia coisas sobre a minha mente, e também quando tu diz que eu sou imprevisível, e que tu nunca sabe o que se passa dentro da minha cabeça. Gosto quando tu fuma o teu cigarro em silêncio com aquela cara de prazer. Gosto quando tu me nega um pega do teu cigarro porque naquele momento ele é tudo o que tu quer viver, e eu entendo. Gosto da tua cara de preocupada, e também daquela de louca, com esse olho verde estalado dizendo que eu to te irritando ao distorcer tudo o que tu fala, e que pareço a tua mãe quando eu faço isso. Gosto do teu sorriso de amor, quando estamos embaixo daquele edredom maravilhoso, e gosto das coisas que tu falas no meu ouvido quando eu te faço revirar os olhos. Gosto de quando nós duas estamos no clima de casal idoso, e de quando tu me xinga por ter dormido no começo de um filme que tu queria que eu visse. Enfim, eu gosto tanto de ti que quando começo a falar as coisas boas que a gente vive, eu esqueço que tô puta da cara contigo por ter me olhado com aquela cara de despreocupada em relação a nós; quando tudo aquilo que eu tenho está preso na palma da tua mão.
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