Eu não sei esperar. Eu vivo numa eterna cobrança
interna. Eu me cobro demais, eu me jogo demais, eu me atiro de cabeça e ainda
faço questão de fazer conta que está tudo sob controle. Eu esqueço, por vezes,
que eu sou humana e que eu também posso desistir quando isso for o melhor a se
fazer. Mas não, eu exijo demais de mim, e não admito imperfeições. Fracassos
então, nem se fala. Não sei... pode ser egocentrismo, mas eu sei que eu não
nasci pra perder. Eu sei perder elegantemente, apenas. Entende? É assim: eu não
desço do salto ao encarar minhas perdas. Aparentemente, eu aceito numa boa que
não deu e pronto. Mas aí, me olho no espelho e suplico que eu possa realmente
entender. Mas, internamente, eu fico pensando: ‘eu nem queria mesmo. Eu sou
capaz de conseguir coisas MUITO melhores.’ E acabo aceitando bem em breve que
aquilo não era pra mim. Mas eu preciso confessar: eu detesto perder. Isso
provavelmente se deve ao fato de que eu penso em tudo em todos os ângulos e
planejo tudo sempre de forma minuciosa. Eu sou taurina, detesto inseguranças.
Como disse a eterna Clarice Linspector –me descrevendo muito bem, por sinal -: “Eu
preciso de um excesso de segurança pra me sentir mais ou menos segura”. Detesto
fazer planos para coisas que nunca vão acontecer. É que, quando eu faço planos,
eu acredito muito neles e procuro concretizá-los com todas as minhas forças. E
normalmente os concretizo, graças a Deus. Sei lá, deve ser porque eu acredito
mesmo na lei da atração. E ainda, eu sou uma pessoa muito decidida em relação a
essas coisas de futuro, especialmente. E aí, eu detesto estar indecisa. É por
pouquíssimo tempo, eu sei. Mas eu tenho metas traçadas muito claramente dentro
da minha cabeça –e coração-, e eu consigo me enxergar daqui a 10 anos. Entende
o que eu quero dizer? Você me entende? Eu detesto ter que planejar outras
coisas. Eu sei que isso é coisa da vida, e que o que eu pretendia de repente
não ia ser legal pra mim. Mas eu sou de terra, pô. Eu tenho pavor de estar nessa situação que
estou agora. Eu tenho que encontrar um novo objeto de atenção e correr atrás
dele. Só que eu estou perdida. Eu olho pros lados e vejo todo o apoio do mundo.
Mas eu olho pras pessoas que poderiam me ajudar agora e elas não parecem me
notar. Eu tenho uma oportunidade que se eu quisesse, eu teria em mãos. Mas eu
sou ambiciosa demais, e prefiro ficar mais uma semana esperando pra ver qual
direção seguirei. E a oportunidade que tenho em mãos, só em último caso. Queria
ser mais leve pra essas coisas, sabe? Decidir fácil, ir conforme a maré, e se
aparecerem coisas melhores, ir deixando as oportunidades já em mãos de lado.
Mas eu prefiro esperar, e seguir até o fim com tudo o que eu me propuser a
fazer. É melhor assim, não é? Não gosto de deixar coisas pra trás, a menos que
eu já tenha comparecido até o fim. É sério. Ano passado, por exemplo, eu cumpri
com algo que eu odiava, mas eu tinha um contrato, e fui até o fim; É claro. Era
uma oportunidade ótima, eu sei. Mas eu não aguentava mais trabalhar em cima
daquilo. Não via sentido em trabalhar com algo que eu não gostava. E é por
isso, exatamente por isso, que hoje estou nessa. Eu não quero fazer nada que eu
não goste. Quero fazer melhor, sabe? Quero me entregar e gostar do que estou
fazendo, me dedicar. Mas estou com grandes problemas internos. É uma discussão
profissional interna, eu sei. Ainda bem que eu também sei que passa. Rapidinho
passa. Eu só preciso colocar a cabeça no lugar.
"Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu
estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente
demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava
mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns
relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho,
amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o
que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará." Caio Fernando Abreu
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